27/04/2011

O inesperado - Crônica de um trabalho de campo em dança na nossa Brasília

A  Companhia já começou a pesquisa de seu novo trabalho: De Carne e Concreto. Um desdobramento da pesquisa Cidade em Plano. A partir de todo o estudo feito para criar o espetáculo Cidade em Plano desenvolveremos conceitos, ideias, aprofundando estudos, buscando novas abordagens, enfim multiplicando as possibilidades cênicas e expressivas do corpo e do movimento por meio de reflexões que há um bom tempo matura em nosso corpo e imaginário!

 Para isso estamos retomando textos, refazendo exercícios de percepção de espaço, e olhando para a dramaturgia do espetáculo já criado de um outro ponto de vista. Inevitávelmente inspirados no livro Arqueologia de um Processo Criativo -Um Livro Coreográfico (recém produzido plea Companhia sobre a criação do espetáculo Cidade em Plano, que já , já terá seu lançamento) começamos revendo como surgiram as ideias, analizando suas origens e reverberações dramaturgicas e coreográficas.

Uma das estratégias adotadas para a criação é a pesquisa de campo, onde vamos à cidade experimentar com o corpo sensações e o ser e estar nesta cidade.  Nossa aventura hoje merece um espaço aqui no blog pela coincidência, o acaso, a emoção e a dimensão inesperada que transformou nossa vivência nessa manhã ensolarada de Brasília.

Foto: Agência Brasil

Hoje ás 10h da manhã aproximadamente, estavamos em um lugar que talvez vc nunca tenha ido... Vc conhece a perspectiva da bandeira nacional vista do  pé do mastro ?? Pois é, estávamos lá fazendo um exercício de percepção de espaço e detalhes da paisagem e de repente um carro da polícia invadiu o gramado de forma quase violenta e ameaçadora. Cheguei a pensar que o que estávamos fazendo era proibido.... Mas calmos e certos de que  o que estávamos fazendo era totalmente inofensivo e legal continuamos...

O  nosso exercício era assim, cada um tinha que apontar na paisagem algo que lhe chamasse a atenção. Enquanto um apontava com um gesto algo que lhe intereressava por qualquer motivo, os outros, seguindo a linha do braço, tentava ver o que estava sendo mostrado. Víamos então pelos olhos do outro, algo sempre inusitado que não tiínhamos percebido até então, e talvez nunca víssemos se não fosse pelo olhar do outro. Mesmo viajando no exercício percebemos que os policialis agiam estranho.

Escutávamos rojões e um buzinaço de uma espécie de manifestação que parecia estar acontecendo bem na frente do Palácio do Planalto. De repente percebemos que tinha um homem que havia escalado o mastro da bandeira pela parte de dentro do mastro onde havia uma escada. De lá o homem falava em um megafone chamando seus companheiros para se juntar a ele !

Daí o que se viu foi incrível. O  lugar começou a ser invadido por carros de polícia, equipes de rádios, de televisões e bombeiros, mais  manifestantes vestidos de amarelo e com buzinas, faixas , bandeiras e até um caixão ( de enterro) todo cheio de panos verdes e amarelos... Não necessariamente nessa ordem.

Para nós a emoção era a de ver um grupo de brasileiros tão organizados, emocionados, corajosos lutando por seus direitos. Usando o espaço público e o símbolo de uma nação para reinvindicar e como eles mesmo falavam  para desabafar e fazer alguma coisa diante de uma coisa que era pra eles tão injusta e indevida. Raiva, indignação, força, grito, gestos cortando o ar e choro. Corpo em risco. O homem lá em cima tentava colocar sua faixa, suas palavras, seu discurso lá no alto para poder ser notado! Um homem com uma bandeira amarrada nas costas se afastou do grupo se ajoelhou como que desistindo de resistir se entregou ás lágrimas , meio tímido, humilhado e com vergonha, mas totalmente  entregue. Por segundos eu vi, e nem tive coragem de apontar... Outro circulava com uma bandeira furada, essa que o fotógrafo registrou. Dois dos manifestantes aproximaram de nós e contaram tudo o que estava acontecendo.  Palavras amargas e magoadas como: aquela bandida não quer nos receber! Depois mais calmos nos explicaram: E a gente votou nela! Ela recebe os estrangeiros lá do Haiti mas não recebe a gente aqui do Brasil. Tá certo que nossos irmãos do Haiti mereçam a atenção dela mas não é justo a gente de casa não ser ouvido. Primeiro a gente tem que arrumar a casa da gente para depois pensar nos estrangeiros. Não é justo! Já são 10 anos de luta e eles não nos dão atenção! Já fizemos de tudo por meio legais e não adianta.



Ficamos tomados e ficamos lá esperando o que ia acontecer. Um deles foi dar entrevista para os repórteres, as camêras, os microfones, cbns, redes globos, redes tv, sbts... Ficamos sabendo que tinham três peesoas lá em cima e que a intenção deles era ficar lá até a Dilma recebê-los. Estavam preparados: tinham comida, água, roupas de frio e até advogado.

Foi difícil ir embora. Mas fomos com essa dimensão de cidade que Brasília  tem e de que tanto somos muitas vezes tão alheios. Dançamos num prédinho quase cravado na explanada dos ministérios. Tão perto e tão longe. Quantas realidades existem?  Dançamos depois com a pele, com o vento e com o sol com o corpo atravessado, furado, engasgado.



Será que os homens ainda estão lá agora?


Para quem quizer saber mais sobre as razões da manifestação acesse os links:
http://noticias.r7.com/brasil/noticias/ex-soldados-da-aeronautica-ameacam-por-fogo-em-bandeira-do-brasil-20110427.html

http://odia.terra.com.br/portal/brasil/html/2011/4/ex_soldados_da_fab_sobem_no_mastro_da_bandeira_durante_protesto_em_brasilia_160655.html








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